SALARIS – Fictions from the salt 

Photos by Hugo Botelho Rodrigues

SALARIS
ficções a partir do sal

 

Maura Grimaldi, Natália Loyola e Victor Gonçalves

Texto de Nuno Marques

17 de abril a 16 de maio de 2025

TECHSALT | Minas de Sal Gema de Loulé | Loulé, Portugal

 

sal na ferida

há uma linha de água que corrói o muro de sal da mina. veio de um furo muito antigo que abriu uma fissura de 3 metros, e a cada 90 dias 5500m² de água salgados são levados por camiões para uma salina em Faro. Daqui, da distância a que me encontro a olhar para a mina, é nessa cicatriz que reparo como ponto de partida para uma ecopoética geológica, da mineração.

 

ao contrário das camadas e da acumulação, escrever poesia dos lugares extrativos do Antropoceno é infiltrar as superfícies planas desta época, que são opacas e nivelam diferenças e posições. há outras técnicas poéticas de trabalhar o geológico, como o uso da lírica para trazer a um mesmo campo a coincidência do tempo profundo e do atual, um espanto humano que mergulha no lítico. mas esse espanto por si não chega, corre o risco de unificar as diferenças num ponto-de-vista lítico que produz um comum geológico vindo do fundo. assim a unificação da visão do Antropoceno através do tempo e do espaço das práticas geológicas só pode oferecer uma política indiferente e não diferenciadora.

 

se toda a relação com o geológico é de espanto então as minas não têm profundidade, extração, asfixia; só têm o olhar solipsista do humano num tempo geológico, são superfícies discursivas.

 

também a mina de Loulé se diz limpa, branca, clara, aberta. não é como a de Maceió que se fez injetando água que depois era bombeada e evaporada e de onde tanto se tirou que ruiu; não se fez como a de São Domingos que quando fechou deixou poços de água contaminada, pulmões consumidos, mineiros que vieram para a de sal cavar-lhes os dois poços, dar-lhe forma.

 

no final dos anos 70, foi comprada pela CUF, tiravam-lhe o sal com dinamite para alimentar as indústrias químicas do Barreiro e de Estarreja – a Quimigal e a subsidiária Uniteca – que exportavam fertilizantes para a agricultura intensiva nas colónias em África e asfixiavam trabalhadores, famílias e ameijoas na foz do Tejo; e, mais tarde, ajudavam no fabrico de cloro para a produção de PVC pela Dow Portugal.

à distância é agora uma superfície do Antropoceno onde convivem o tempo profundo, pois já foi mar, e o de agora que é o da trituração pelos parafusos das máquinas, o das visitas escolares e programas turísticos. é uma matiz baça ligada às rotas do turismo do sal que, no Sul, vão a Tavira, Olhão, Castro Marim. olhando de cima é um salar a refletir o Sol.

 

penso na cicatriz da mina e na ecopoética geológica então. esta ecopoética faz conviver temporalidades, escava e traz à superfície os nodos e as redes, os corpos que fazem as camadas sob as quais as coisas dadas assentam. mas a cicatriz abre para outras técnicas que não sejam elas mesmas de camadas ou profundidades. com a infiltração, as superfícies antropocénicas são rasgadas aparecem os lábios secos dos que não respiram nas minas, nos campos alterados geneticamente.

 

há implicações na forma quando a poesia é geológica: diz Brenda Hillman que, num tempo de terramotos de pequena magnitude a lírica tinha que incluir o partido, o fragmentado, o plural, o inconsistente, a surpresa.

 

e há também implicações para o fazer para além do espanto da relação mente rocha: Jetnil-Kijiner faz conviver o tempo profundo das ilhas Marshal com o tempo absurdo da radioatividade dos testes nucleares americanos – é uma poesia que canta a partir e com o tóxico porque os cancros da garganta tiram a voz e, numa cultura de tradição oral, as histórias deixam de poder ser cantadas.

 

Carlos Román desenha o Chile a cruzes de cemitério onde há minas e siderurgias, porque o cobre, o cloro, os químicos asfixiam. em Manaus, Diego Moraes escreve um pulmão a pairar no céu e a dar ar aos aflitos pelo mercúrio, pelo enxofre, pelo dióxido. CA Conrad fazem rituais somáticos, engolem terra e pedras e os sonhos que têm são sonhos das camadas revoltas das sem tempo.

 

por isso é que, à distância, olho a cicatriz, imagino a água salgada a infiltrar a mina, uma cidade de estátuas feitas por mineiros e essa cicatriz me leva a infiltrar a limpa superfície discursiva da mina com o toque: tocar as paredes, abrir veios, estender as mãos de dentro da gema.

 

por isso Lorca tinha uma luva de mercúrio e outra de seda, para que quando as camadas se esfarelassem ao tocar-lhes ainda lhes sobrasse a voz dos mortos. porque este toque é de mercúrio e de seda, é de cortar e de acariciar.

 

por isso uma ecopoética da mineração pode ser falar como quem toca, abrir veios de onde escorrem as coisas extraídas, línguas estendidas, lábios abertos. fazer canções do viver no tóxico, do afundar, com o coração aberto para ouvir vê lá como venho eu:

vê lá Maruxina

Santa Bárbara Bendita

São Domingos

Reinaldo Arenas

Brenda Hillman

CA Conrad

 

podemos falar

podemos sentir

podemos tocar

 

no Antropoceno

em vez de salgar as campas dos mortos

espalhar purpurina nas feridas como CA Conrad

trazer um sal que queima os olhos de quem faz a ferida

um sal que canta canções dos cortes

em vez da descrição conjurar fantasmas como Lorca

espalhar-lhe as vozes que ligam fundos a sonhos

ligam gritos à inscrição

 

dizer mãos escravas que em nome da pátria

e dos seus santos princípios

mãos que se adentram na terra que arranham

mãos que arrancam

e por dizê-lo Reinaldo inscreves essas mãos

que poliram os grãos que adoçam as línguas reais

 

e aqui saíste da descrição ingénua e aqui trouxeste as vozes e aqui o cronista és tu

os criadores de fundura sabem descer olhando para cima e subir olhando para baixo

 

e aqui o Antropoceno se esfarela e aqui a estátua de sal se quebra

e aqui levo a gema à boca

são campos de sangue cristais remoídos

partem-se-me os dentes entalho os veios do sal

aparecem bocas que riem mãos que esgaravatam

dois olhos duas gemas um poço uma antecâmara

as roldanas arrastam grãos os turistas fotografam os entalhes

a nuvem de pó salgada entra nas flores do pulmão

e aqui encostamos o vazio dos ouvidos aos cortes que escorrem da infiltração:

 

na cicatriz, uma pessoa espera outra junto à barra de ferro para que o som da coluna saia e se ouçam as histórias, alguém conta uma história no vídeo, a voz a enrolar-se no corpo, a mesa de sal traz as vozes dos extraídos nos relatórios forenses feitos em barcos. são poéticas geológicas, infiltram a superfície luzidia do sal panfletário e produtor, levantam vozes.

 

Nuno Marques. Huddinge, Suécia, 14 de abril de 2025

escrito a partir de encontros com Maura Grimaldi, Natália Loyola e Victor Gonçalves e de leituras e comentários ao mesmo por Rita Barreira.

 

 

Referências

Arenas, Reinaldo. Inferno (poesía completa). Editorial Lumen. Barcelona, 2001.

Conrad, CA. Politics of Poetics. https://youtu.be/o-qtIcrr-MI?si=kwuvZLhuiuwibPFM

Cordeiro, Mayara Taveira. Caracterização ambiental do complexo mineiro de São Domingos – cartografia de infraestruturas e impacte sobre o meio hídrico. Tese de Mestrado. Mestrado em Geociências. Escola de Ciências da Universidade do Minho.

Gil, Greta Symanski Rey. Dessalinização de água da mina de sal-gema em Loulé para usos urbanos não potáveis e reutilização de sal. Tese de Mestrado. Mestrado em Ciclo Urbano da Água. Instituto Superior de Engenharia da Universidade do Algarve, 2021.

Hillman, Brenda. Cascadia. Wesleyan University Press, 2001.

Jetnil-Kijiner, Kathy. Iep Jāltok: Poems from a Marshallese Daughter. University of Arizona Press, 2017.

Lorca, Federico Garcia. “Omega (Poema Para Los Muertos)”. Adapt. Enrique Morente e Lagartija Nick. in Omega – Cantando a Federico García Lorca y Leonard Cohen. El Europeo Música, 1996.

Moraes, Diego. Dentro do Meu Peito Você Pode Cultivar a Solidão o Ano Inteiro. Douda Correria, 2017.

Resolução n.o 108/78, de 14 de julho. (1978). [Estabelece normas sobre a constituição da empresa Isopor – Companhia Portuguesa de Isocianatos, Lda.]. Diário da República n.o 160/1978, Série I de 1978-07-14, páginas 1304 – 1305. https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/resolucao/108-297616

Román, Carlos Soto. “Zonas de sacrificio”. Ruge el bosque: Ecopoesía del Cono Sur. Editado por Valeria Meiller, Whitney DeVos y Javiera Pérez Salerno. Caleta Olivia, 2023.

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